## Visão Geral
Dor de estômago — clinicamente denominada dor abdominal — é um dos sintomas mais comuns encontrados tanto na atenção primária quanto na medicina de emergência. Engloba qualquer desconforto sentido entre o tórax e a pelve, podendo variar de uma dor surda e intermitente até uma dor intensa e debilitante que requer intervenção de emergência. A Classificação Internacional de Doenças a codifica sob **ICD-10 R10** (dor abdominal e pélvica), com subcódigos especificando a localização (p. ex., R10.1 para dor abdominal superior, R10.3 para dor abdominal inferior).
A dor abdominal é o **motivo isolado mais comum** de visitas ao pronto-socorro nos Estados Unidos, representando aproximadamente 11–12% de todas as apresentações no setor de emergência [1]. Na atenção primária, está entre as dez queixas mais frequentes, com uma prevalência estimada ao longo da vida de distúrbios funcionais de dor abdominal (como a síndrome do intestino irritável) afetando 10–15% da população adulta mundial [2]. Uma revisão sistemática de 2014 constatou que a dor abdominal na atenção primária é mais frequentemente autolimitada, mas aproximadamente 10% dos casos têm uma causa orgânica subjacente que requer tratamento direcionado [3].
As pessoas buscam informações sobre dor de estômago porque é uma experiência quase universal, porém altamente variável em significância. A dor pode originar-se do próprio trato gastrointestinal (dor visceral), da parede abdominal ou do peritônio (dor somática/parietal), ou pode ser referida de estruturas extra-abdominais como o coração ou os pulmões. Compreender o caráter, a localização, o momento e as características associadas da dor abdominal é essencial para determinar se o autocuidado é apropriado ou se é necessária uma avaliação médica.
> **Aviso:** Este artigo tem finalidade meramente informativa e não substitui o aconselhamento médico profissional. Se você estiver apresentando dor abdominal intensa ou persistente, consulte um profissional de saúde.
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## Causas Comuns
A dor abdominal possui um amplo diagnóstico diferencial. As causas a seguir estão organizadas aproximadamente por frequência em ambientes de atenção primária e emergência em adultos, com breve fisiopatologia para cada uma.
### 1. Dispepsia Funcional e Indigestão
A causa mais comum de dor abdominal superior recorrente sem sinais de alarme. Acredita-se que envolva hipersensibilidade visceral, acomodação gástrica prejudicada e motilidade gastroduodenal alterada. Uma diretriz de 2017 do American College of Gastroenterology (ACG) estima que a dispepsia funcional afeta 15–20% da população ocidental [4].
### 2. Síndrome do Intestino Irritável (SII)
Um distúrbio gastrointestinal funcional caracterizado por dor abdominal recorrente associada a alteração do hábito intestinal (diarreia, constipação ou ambos). A fisiopatologia envolve desregulação do eixo intestino-cérebro, hipersensibilidade visceral, microbiota intestinal alterada e inflamação mucosa de baixo grau. A SII afeta aproximadamente 11% da população mundial [2].
### 3. Gastrite e Doença Ulcerosa Péptica
Inflamação da mucosa gástrica (gastrite) ou erosão mucosa que se estende através da muscular da mucosa (úlcera). As duas etiologias principais são a infecção por *Helicobacter pylori* e o uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs). O *H. pylori* rompe a barreira de bicarbonato da mucosa, enquanto os AINEs inibem a síntese de prostaglandinas, reduzindo o fluxo sanguíneo mucoso e a secreção de muco protetor [5].
### 4. Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE)
Refluxo de ácido gástrico para o esôfago, frequentemente percebido como dor epigástrica ou subesternal ("azia"). Causado por relaxamento transitório do esfíncter esofágico inferior, hérnia hiatal ou depuração esofágica prejudicada.
### 5. Gastroenterite Aguda
Infecção do trato gastrointestinal por vírus (norovírus, rotavírus), bactérias (*Salmonella*, *Campylobacter*, *E. coli*) ou parasitas. Produz dor abdominal difusa em cólica com diarreia e/ou vômitos. Tipicamente autolimitada (24–72 horas).
### 6. Constipação
Evacuação infrequente ou difícil causando distensão, cólicas e dor no quadrante inferior esquerdo. A fisiopatologia envolve trânsito colônico lento, disfunção do assoalho pélvico ou ingestão inadequada de fibras dietéticas e líquidos.
### 7. Cólica Biliar e Colecistite
Cálculos biliares impactando o ducto cístico produzem dor episódica no quadrante superior direito (cólica biliar). Obstrução persistente com inflamação secundária leva à colecistite aguda. A dor é tipicamente pós-prandial, durando de 30 minutos a várias horas.
### 8. Apendicite
Inflamação do apêndice vermiforme, classicamente apresentando-se como dor periumbilical que migra para o quadrante inferior direito (ponto de McBurney). O risco ao longo da vida é de aproximadamente 7–8%. A obstrução do lúmen apendicular (por fecalito, hiperplasia linfoide) leva a supercrescimento bacteriano, isquemia mural e potencial perfuração [1].
### 9. Causas Urinárias e Renais
Cálculos renais (nefrolitíase) causam dor intensa em cólica no flanco irradiando para a virilha. Infecções do trato urinário podem apresentar-se com desconforto suprapúbico. Pielonefrite causa dor no flanco com febre.
### 10. Dor Musculoesquelética / da Parede Abdominal
Frequentemente negligenciada, a dor da parede abdominal (p. ex., distensão da bainha do reto, síndrome do aprisionamento do nervo cutâneo anterior) pode mimetizar patologia visceral. O sinal de Carnett (aumento da dor com tensionamento da parede abdominal) auxilia na distinção desta de causas intra-abdominais.
### Causas Menos Comuns, Porém Importantes
- **Pancreatite** — dor epigástrica irradiando para as costas, associada ao uso de álcool ou cálculos biliares
- **Isquemia mesentérica** — "dor desproporcional ao exame" em pacientes idosos com fatores de risco vasculares
- **Aneurisma de aorta abdominal** — massa abdominal pulsátil com dor lombar
- **Obstrução de intestino delgado** — dor em cólica, distensão, vômitos, ausência de flatos
- **Causas ginecológicas** — gravidez ectópica, torção ovariana, endometriose
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## SINAIS DE ALERTA
Os seguintes sinais e sintomas associados à dor abdominal justificam **avaliação médica imediata** (pronto-socorro ou serviço de emergência):
- **Dor abdominal súbita e intensa ("em trovoada")** — pode indicar perfuração, dissecção aórtica ou aneurisma roto
- **Abdome rígido, em tábua** — sugere peritonite
- **Hematêmese (vômito com sangue) ou melena (fezes escuras e pegajosas)** — indica hemorragia digestiva alta
- **Hematoquezia (sangramento retal vermelho vivo)** com instabilidade hemodinâmica
- **Dor abdominal com febre > 38,5 °C (101.3 °F) e calafrios**
- **Sinais de choque**: taquicardia, hipotensão, palidez, confusão mental, diaforese
- **Dor intensa em paciente acima de 65 anos** — maior risco de isquemia mesentérica, aneurisma de aorta abdominal e apresentações atípicas de condições comuns
- **Dor abdominal com teste de gravidez positivo** — gravidez ectópica deve ser excluída
- **Incapacidade de eliminar gases ou evacuar** com distensão progressiva — sugere obstrução intestinal
- **Dor irradiando para mandíbula, braço esquerdo ou ombro** — apresentação atípica de infarto agudo do miocárdio, especialmente em mulheres e pacientes diabéticos
- **Cirurgia ou procedimento abdominal recente** com dor de início recente — deiscência de anastomose, abscesso ou hemorragia
- **História conhecida de aneurisma de aorta** com nova dor lombar ou abdominal
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## Autocuidado em Casa
Para dor abdominal leve e sem sinais de alarme (sem os sinais de alerta acima), as seguintes medidas não farmacológicas baseadas em evidências podem proporcionar alívio:
### Modificações Dietéticas
- **Refeições pequenas e frequentes** — reduzem a distensão gástrica e estimulam menor secreção ácida a cada refeição
- **Evitar gatilhos conhecidos** — os responsáveis mais comuns incluem alimentos picantes, alimentos gordurosos/fritos, cafeína, álcool e bebidas gaseificadas
- **Dieta BRAT** (bananas, arroz, purê de maçã, torrada) — tradicionalmente recomendada durante a gastroenterite para reduzir o volume das fezes, embora a evidência seja limitada; alimentos leves são geralmente melhor tolerados
- **Ingestão adequada de fibras** (25–30 g/dia) — benéfica para dor relacionada à constipação; aumente gradualmente para evitar distensão abdominal [2]
### Hidratação
- **Reidratação oral** — fundamental na gastroenterite. Soluções de reidratação oral (SRO) contendo glicose e eletrólitos são preferidas à água pura para perdas hídricas significativas
- Evitar consumo excessivo de álcool e cafeína, que podem agravar a gastrite e a desidratação
### Medidas Físicas e Comportamentais
- **Termoterapia** — uma compressa morna ou bolsa térmica aplicada ao abdome por 15–20 minutos pode aliviar cólicas ao promover relaxamento da musculatura lisa. Um pequeno estudo randomizado constatou que calor tópico contínuo de baixa intensidade foi comparável ao ibuprofeno para dor abdominal relacionada ao período menstrual
- **Repouso e posicionamento** — deitar-se sobre o lado esquerdo com os joelhos flexionados (posição fetal) pode reduzir a pressão sobre o intestino e aliviar o desconforto relacionado a gases
- **Controle do estresse** — o eixo intestino-cérebro é bem estabelecido; o estresse psicológico exacerba a dor gastrointestinal funcional. Técnicas como respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo e terapia cognitivo-comportamental (TCC) demonstraram eficácia para sintomas da SII [2]
- **Óleo de hortelã-pimenta (cápsulas com revestimento entérico)** — uma meta-análise de qualidade Cochrane de 2019 constatou que o óleo de hortelã-pimenta melhorou significativamente os sintomas globais da SII e a dor abdominal em comparação ao placebo, provavelmente por antagonismo de canais de cálcio na musculatura lisa intestinal [6]
### O Que Evitar
- **Não** aplique bolsa térmica no abdome se houver suspeita de apendicite ou outra causa cirúrgica
- Evite AINEs (ibuprofeno, naproxeno) se gastrite ou úlcera for provável — eles podem agravar a lesão mucosa
- Não tome laxantes para dor abdominal de causa desconhecida
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## Medicamentos de Venda Livre Que Ajudam
Medicamentos de venda livre podem ser apropriados para sintomas abdominais leves a moderados sem sinais de alerta. Sempre leia a bula e siga as doses recomendadas.
| Classe | Exemplo(s) | Dose Adulta Típica | Observações / Contraindicações |
|---|---|---|---|
| **Antiácidos** | Carbonato de cálcio (Tums), Hidróxido de magnésio / Hidróxido de alumínio (Maalox) | 500–1000 mg de carbonato de cálcio conforme necessário (máx. 7500 mg/dia) | Alívio rápido dos sintomas pela neutralização do ácido gástrico. Produtos à base de cálcio podem causar constipação; à base de magnésio podem causar diarreia. Evitar na insuficiência renal. |
| **Antagonistas dos Receptores H2** | Famotidine (Pepcid AC) | 10–20 mg uma ou duas vezes ao dia | Reduz a secreção de ácido gástrico. Início de ação ~30 min. Geralmente bem tolerado. Preferido em relação à ranitidina (retirada do mercado devido a preocupações com NDMA — FDA 2020). |
| **Inibidores da Bomba de Prótons (venda livre)** | Omeprazole (Prilosec OTC), Esomeprazole (Nexium 24HR) | 20 mg uma vez ao dia por até 14 dias | Supressão ácida mais potente. Leva 1–3 dias para efeito pleno. Não serve para alívio imediato. Não deve ser usado além de 14 dias sem supervisão médica. Risco de *C. difficile*, hipomagnesemia e deficiência de B12 com uso prolongado [5]. |
| **Simeticona** | Gas-X, Mylicon | 40–125 mg após as refeições e ao deitar (máx. 500 mg/dia) | Agente antiespumante que coalece bolhas de gás. Sem absorção sistêmica. Muito seguro, mas evidência limitada de eficácia para distensão funcional. |
| **Subsalicilato de bismuto** | Pepto-Bismol | 524 mg a cada 30–60 min conforme necessário (máx. 8 doses/dia) | Efeitos antimicrobianos, anti-inflamatórios e antissecretores. Útil para diarreia do viajante e dispepsia leve. **Evitar** em alergia a salicilatos, crianças (risco de síndrome de Reye) e pacientes em uso de anticoagulantes. |
| **Loperamida** | Imodium A-D | 4 mg inicialmente, depois 2 mg após cada evacuação líquida (máx. 16 mg/dia) | Agonista do receptor mu-opioide na parede intestinal; diminui a motilidade. Apenas para cólicas associadas à diarreia. **Não usar** em diarreia sanguinolenta ou suspeita de *C. difficile*. |
| **Suplementos de fibras** | Psyllium (Metamucil), Metilcelulose (Citrucel) | Psyllium: 1 colher de chá cheia (≈3,4 g) em 240 mL de água, 1–3 vezes ao dia | Agentes formadores de volume para dor relacionada à constipação. Aumente a dose gradualmente. Garanta ingestão adequada de líquidos. |
| **Laxantes osmóticos** | Polietilenoglicol (MiraLAX) | 17 g em 240 mL de água uma vez ao dia | Para constipação. Início de ação em 1–3 dias. Bem tolerado; geralmente seguro para uso a curto prazo. |
> **Importante:** Medicamentos de venda livre devem ser usados para controle de sintomas a curto prazo. Se os sintomas persistirem por mais de 2 semanas ou piorarem, avaliação médica é recomendada.
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## Opções com Prescrição Médica
A terapia com prescrição é indicada quando as medidas de venda livre falham, quando um diagnóstico específico é estabelecido, ou quando a gravidade dos sintomas requer intervenção farmacológica direcionada. Esses medicamentos devem ser tomados apenas sob supervisão médica.
| Classe | Exemplo(s) | Indicação | Observações |
|---|---|---|---|
| **IBPs com prescrição** | Omeprazole 40 mg, Pantoprazole 40 mg, Lansoprazole 30 mg | DRGE, doença ulcerosa péptica, erradicação de *H. pylori* (como parte da terapia tríplice/quádrupla) | Doses mais altas e cursos mais longos que os de venda livre. Monitorar complicações a longo prazo. |
| **Terapia de erradicação do *H. pylori*** | Terapia tríplice com claritromicina (IBP + claritromicina + amoxicilina) ou terapia quádrupla com bismuto | Infecção confirmada por *H. pylori* | Duração do tratamento: 10–14 dias. A resistência aos antibióticos está aumentando; terapia guiada por suscetibilidade é preferida quando disponível [5]. |
| **Antiespasmódicos** | Butilbrometo de escopolamina (Buscopan), Diciclomina (Bentyl) | Cólicas relacionadas à SII, cólica biliar | Efeitos colaterais anticolinérgicos (boca seca, retenção urinária, visão turva). Evitar em glaucoma e hipertrofia prostática. |
| **Antidepressivos tricíclicos (dose baixa)** | Amitriptilina 10–25 mg ao deitar | Dor abdominal funcional, SII (predominância de dor) | Efeito neuromodulador no processamento da dor visceral. Não utilizado como antidepressivo nessas doses. Titulação gradual. Médico prescritor: gastroenterologista ou médico da atenção primária [4]. |
| **ISRS / IRSN** | Duloxetina, Citalopram | Dor gastrointestinal funcional com ansiedade/depressão comórbida | Pode melhorar os sintomas globais por modulação central da dor. Prescrito pela atenção primária ou psiquiatria. |
| **Rifaximina** | Xifaxan 550 mg 3x/dia por 14 dias | SII com diarreia (SII-D) | Antibiótico não absorvível que modula o microbioma intestinal. Aprovado pela FDA para SII-D. Pode necessitar de cursos repetidos [2]. |
| **Linaclotida / Plecanatida** | Linzess 145–290 mcg diário | SII com constipação (SII-C), constipação idiopática crônica | Agonista da guanilato ciclase-C. Aumenta a secreção de fluidos intestinais. Tomar em jejum 30 min antes da primeira refeição. |
| **Ácido ursodesoxicólico** | Ursodiol 8–10 mg/kg/dia | Dissolução de cálculos biliares (pacientes selecionados), dor biliar | Para cálculos de colesterol em candidatos não cirúrgicos. Dissolve os cálculos lentamente ao longo de 6–24 meses. |
| **Reposição de enzimas pancreáticas** | Creon (pancrelipase) | Insuficiência pancreática exócrina (pancreatite crônica) | Dose titulada conforme ingestão de gordura. Prescrito por gastroenterologista. |
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## Exames Laboratoriais Comumente Solicitados
Quando a dor abdominal requer avaliação médica, os clínicos utilizam exames laboratoriais e de imagem para estreitar o diagnóstico diferencial. Os exames específicos solicitados dependem da localização da dor, do caráter e do contexto clínico [1][7].
| Exame | Justificativa |
|---|---|
| **Hemograma Completo (HC)** | Avaliar infecção (leucocitose), anemia (perda sanguínea gastrointestinal), trombocitose (inflamação). Veja [Exame de hemograma](/tests/complete-blood-count). |
| **Painel Metabólico Abrangente (PMA)** | Avaliar eletrólitos, função renal (ureia/creatinina), enzimas hepáticas (AST, ALT), bilirrubina e glicose. Enzimas hepáticas anormais sugerem patologia hepatobiliar. Veja [Exame de PMA](/tests/comprehensive-metabolic-panel). |
| **Lipase** | Elevada > 3× o limite superior do normal é diagnóstica para pancreatite aguda. Mais específica que a amilase. Veja [Exame de lipase](/tests/lipase). |
| **Urinálise** | Triagem para ITU, cálculos renais (hematúria) ou cetoacidose diabética (cetonúria). Veja [Exame de urinálise](/tests/urinalysis). |
| **Proteína C-Reativa (PCR) / VHS** | Marcadores inflamatórios inespecíficos. Úteis para diferenciar doença funcional de orgânica e monitorar doença inflamatória intestinal. Veja [Exame de PCR](/tests/c-reactive-protein). |
| **Exames de fezes** | Calprotectina fecal (distingue DII de SII), coprocultura, pesquisa de ovos e parasitas, toxina de *C. difficile*, pesquisa de sangue oculto nas fezes (PSOF). Veja [Exame de calprotectina fecal](/tests/fecal-calprotectin). |
| **Teste de gravidez urinário/sérico (beta-hCG)** | **Obrigatório** em todas as mulheres em idade reprodutiva com dor abdominal para excluir gravidez ectópica. Veja [Teste de gravidez](/tests/pregnancy-test-hcg). |
| **Teste para *H. pylori*** | Teste respiratório com ureia ou teste de antígeno fecal se houver dispepsia. Sorologia é menos preferida (não distingue infecção ativa de passada) [5]. |
| **Painel celíaco** | Transglutaminase tecidual (tTG-IgA) com IgA total. Considerar na dor abdominal crônica com diarreia, perda de peso ou deficiência de ferro. Veja [Painel celíaco](/tests/celiac-panel). |
| **Lactato** | Elevado na isquemia mesentérica, sepse ou necrose intestinal. Exame importante quando há suspeita de isquemia. |
### Exames de Imagem
- **Ultrassonografia abdominal** — primeira linha para dor no quadrante superior direito (cálculos biliares, colecistite) e na gravidez
- **TC de abdome/pelve com contraste** — padrão-ouro para avaliação de dor abdominal aguda no pronto-socorro; alta sensibilidade para apendicite, diverticulite, obstrução e perfuração [7]
- **Radiografia de abdome** — útil para obstrução intestinal (níveis hidroaéreos) e pneumoperitônio (perfuração), embora amplamente substituída pela TC
- **Endoscopia digestiva alta (EDA)** — indicada para dispepsia persistente com sinais de alarme, sangramento gastrointestinal ou falha da terapia empírica
- **Colonoscopia** — indicada para sangramento digestivo baixo, alteração do hábito intestinal em pacientes ≥ 45 anos ou teste imunoquímico fecal (FIT) positivo
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## Populações Especiais
### Crianças e Adolescentes
A dor abdominal é extremamente comum em crianças, com distúrbios funcionais de dor abdominal (conforme critérios de Roma IV) afetando até 13,5% das crianças em idade escolar. Considerações importantes:
- **Intussuscepção** (tipicamente 6 meses – 3 anos) — fezes em "geleia de groselha", dor cólica intensa intermitente, letargia
- **Apendicite** — pico de incidência entre 10–19 anos; apresentações atípicas são mais comuns em crianças mais jovens
- **Dor abdominal funcional** — diagnóstico de exclusão; orientação, modificações dietéticas e terapias psicológicas (hipnoterapia, TCC) são primeira linha
- **Dosagem de medicamentos** — doses pediátricas para medicamentos de venda livre devem seguir as diretrizes baseadas em idade e peso na bula do produto. **Sempre consulte um pediatra antes de administrar medicamentos a crianças**, particularmente menores de 12 anos. Subsalicilato de bismuto é **contraindicado** em crianças e adolescentes devido ao risco de síndrome de Reye.
- Inibidores da bomba de prótons são aprovados pela FDA para crianças com idade ≥ 1 ano para indicações específicas (DRGE, esofagite erosiva) em doses baseadas no peso — apenas sob orientação médica.
### Gestantes
A dor abdominal na gravidez exige avaliação cuidadosa devido à sobreposição de etiologias obstétricas e não obstétricas:
- **Primeiro trimestre**: sempre excluir gravidez ectópica; dor do ligamento redondo é comum e benigna
- **Segundo/terceiro trimestre**: considerar pré-eclâmpsia (dor no QSD + hipertensão + proteinúria), síndrome HELLP, descolamento prematuro de placenta e trabalho de parto prematuro
- **Segurança de medicamentos**:
- **Paracetamol** — geralmente considerado seguro em todos os trimestres (antiga Categoria B do FDA)
- **AINEs** — evitar após 20 semanas de gestação devido ao risco de fechamento prematuro do ducto arterioso e oligoidrâmnio (alerta do FDA, 2020)
- **IBPs** — omeprazole era antiga Categoria C do FDA; dados mais recentes geralmente apoiam a segurança, mas usar apenas quando claramente necessário. Famotidina pode ser preferida como primeira linha para supressão ácida
- **Subsalicilato de bismuto** — **contraindicado** na gravidez (componente salicilato)
- **Antiespasmódicos** — dados de segurança limitados; usar apenas sob orientação obstétrica
- O ACOG recomenda que **qualquer gestante com dor abdominal aguda seja avaliada prontamente** por um profissional de saúde; exames de imagem (começando com ultrassonografia) não devem ser adiados quando indicados
### Idosos (≥ 65 anos)
Adultos mais velhos apresentam desafios únicos:
- **Apresentações atípicas** — a dor pode ser menos intensa apesar de patologia grave (p. ex., perfuração indolor em pacientes em uso de corticosteroides, sensibilidade leve na isquemia mesentérica)
- **Maior mortalidade** — condições abdominais agudas apresentam mortalidade 6–8× maior em idosos em comparação com adultos mais jovens [1]
- **Polifarmácia** — AINEs, anticoagulantes e corticosteroides aumentam o risco de sangramento gastrointestinal. A reconciliação medicamentosa é essencial
- **Causas vasculares** — isquemia mesentérica deve ser considerada em qualquer paciente idoso com "dor desproporcional ao exame", especialmente aqueles com fibrilação atrial, insuficiência cardíaca ou doença vascular periférica
- **Menor limiar para exames de imagem** — TC geralmente é recomendada mais precocemente na investigação de pacientes idosos com dor abdominal aguda [7]
- IBPs e bloqueadores H2 são geralmente bem tolerados, mas podem interagir com clopidogrel (omeprazole) ou requerer ajuste de dose renal (famotidina)
### Atletas
- **Dor abdominal transitória relacionada ao exercício (DATE)** — comumente conhecida como "dor no flanco" ou "pontada". O mecanismo pode envolver isquemia diafragmática ou tração dos ligamentos peritoneais. Geralmente benigna e autolimitada; reduzir o ritmo e respirar profundamente tipicamente proporcionam alívio
- **Diarreia do corredor / desconforto gastrointestinal** — afeta até 30–50% dos atletas de resistência devido à redução do fluxo sanguíneo esplâncnico durante o exercício. Prevenção: evitar refeições ricas em fibras e gorduras 2–3 horas antes do exercício, garantir hidratação adequada e considerar treinar o intestino com ingestão de carboidratos durante o exercício
- **Uso de AINEs** — atletas frequentemente usam AINEs para dor musculoesquelética; isso aumenta significativamente o risco de lesão mucosa gastrointestinal, especialmente quando combinado com hipoperfusão esplâncnica induzida pelo exercício. Usar paracetamol como alternativa quando apropriado
- **Lesões da parede abdominal** — distensão do reto abdominal, hérnia esportiva (pubalgia atlética) devem ser consideradas em atletas com dor abdominal inferior ao esforço
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## Quando Procurar Atendimento
Use o seguinte esquema de decisão para orientar quando buscar atendimento médico. Em caso de dúvida, sempre opte por uma avaliação mais precoce.
### Ligue para o SAMU (192) / Vá ao Pronto-Socorro Imediatamente
- Qualquer sinal de alerta listado acima (abdome rígido, sinais de choque, hematêmese, etc.)
- Dor intensa de início súbito, a pior que já sentiu
- Dor abdominal com desmaio, dor torácica ou dificuldade para respirar
- Dor abdominal com gravidez confirmada ou suspeita
- Dor abdominal após trauma significativo
### Pronto Atendimento / Consulta Médica no Mesmo Dia
- Dor moderada durando > 24 horas sem melhora
- Dor com vômitos persistentes (incapacidade de manter líquidos por > 12 horas)
- Febre > 38 °C (100.4 °F) com dor abdominal
- Dor localizada no quadrante inferior direito ou quadrante superior direito
- Micção dolorosa ou com sangue
- Constipação de início recente durando > 3 dias com dor e distensão
### Consulta Agendada com Médico / Atenção Primária (dentro de 1–2 semanas)
- Dor abdominal recorrente ou crônica (> 4 semanas) interferindo nas atividades diárias
- Perda de peso não intencional associada a sintomas abdominais
- Alteração do hábito intestinal durando > 2 semanas (nova constipação ou diarreia)
- Azia ou dispepsia persistente sem resposta a 2 semanas de tratamento com medicamentos de venda livre
- História familiar de cânceres gastrointestinais (cólon, gástrico, pancreático) com novos sintomas
- Idade ≥ 45 anos com sintomas abdominais de início recente (colonoscopia de rastreamento pode ser indicada conforme diretrizes da USPSTF)
### Orientação Geral
Se você não tem certeza se seus sintomas requerem avaliação urgente, entre em contato com seu médico ou um serviço de orientação em saúde. É sempre melhor ser avaliado e tranquilizado do que adiar a avaliação de uma condição potencialmente grave.
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## Referências
[1] Cartwright SL, Knudson MP. Evaluation of acute abdominal pain in adults. *Am Fam Physician*. 2008;77(7):971-978. PMID:18441863.
[2] Hungin APS, Whorwell PJ, Tack J, Mearin F. The prevalence, patterns and impact of irritable bowel syndrome: an international survey of 40,000 subjects. *Aliment Pharmacol Ther*. 2003;17(5):643-650. PMID:12641512.
[3] Viniol A, Keez S, Becker A, et al. Studies of the symptom abdominal pain — a systematic review and meta-analysis. *Fam Pract*. 2014;31(5):517-529. PMID:24987023.
[4] Moayyedi PM, Lacy BE, Andrews CN, Enns RA, Howden CW, Vakil N. ACG and CAG Clinical Guideline: Management of Dyspepsia. *Am J Gastroenterol*. 2017;112(7):988-1013. PMID:28631728.
[5] Lanas A, Chan FKL. Peptic ulcer disease. *Lancet*. 2017;390(10094):613-624. PMID:28242110.
[6] Alammar N, Wang L, Saberi B, et al. The impact of peppermint oil on the irritable bowel syndrome: a meta-analysis of the pooled clinical data. *BMC Complement Altern Med*. 2019;19(1):21. PMID:30654773.
[7] Gans SL, Pols MA, Stoker J, Boermeester MA. Guideline for the diagnostic pathway in patients with acute abdominal pain. *Dig Surg*. 2015;32(1):23-31. PMID:25659265.
[8] U.S. Food and Drug Administration. FDA Drug Safety Communication: FDA advises avoiding use of NSAIDs in pregnancy at 20 weeks or later. October 2020. Available at: www.fda.gov/drug-safety-communications.
[9] National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Irritable bowel syndrome in adults: diagnosis and management [CG61]. 2008 (updated 2017). Available at: www.nice.org.uk/guidance/cg61.
[10] Peery AF, Crockett SD, Barritt AS, et al. Burden of Gastrointestinal, Liver, and Pancreatic Diseases in the United States. *Gastroenterology*. 2015;149(7):1731-1741. PMID:26327134.
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