## Visão Geral
A cefaleia (CID-10: R51) é uma das queixas de dor mais comuns em todo o mundo. É definida de forma ampla como qualquer dor na região da cabeça ou da parte superior do pescoço, podendo variar de uma dor leve e surda a um episódio grave e debilitante que interfere nas atividades diárias. De acordo com o Global Burden of Disease Study, a cefaleia do tipo tensional e a enxaqueca figuram entre as dez principais causas de incapacidade no mundo, afetando mais de 3 bilhões de indivíduos a cada ano [1]. Somente nos Estados Unidos, as cefaleias representam aproximadamente 2% de todas as consultas em serviços de emergência e são o quarto motivo mais comum de procura por atendimento em clínicas de atenção primária.
As pessoas buscam informações sobre cefaleia por diversos motivos: para determinar se sua dor de cabeça é "normal" ou um sinal de algo grave, para encontrar estratégias eficazes de autocuidado e para decidir se precisam consultar um médico. Como o diagnóstico diferencial da cefaleia abrange desde a cefaleia tensional benigna até condições potencialmente fatais como a hemorragia subaracnóidea, orientações precisas e baseadas em evidências são essenciais.
Este artigo oferece uma visão abrangente e revisada por clínicos sobre cefaleia — incluindo causas comuns, sinais de alerta, medidas de autocuidado, opções de venda livre e com receita médica, exames laboratoriais relevantes, considerações para populações especiais e orientações claras sobre quando intensificar os cuidados.
## Causas Comuns
A Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição (ICHD-3), categoriza as cefaleias em cefaleias primárias (sem causa estrutural subjacente) e cefaleias secundárias (resultantes de outra condição) [2]. A seguir, as causas mais comuns, organizadas aproximadamente por prevalência.
### Cefaleias Primárias
**1. Cefaleia do tipo tensional (CTT)**
A CTT é a cefaleia primária mais prevalente, afetando até 78% da população geral em algum momento da vida. A dor é tipicamente bilateral, de caráter pressivo ou em aperto ("em faixa"), de intensidade leve a moderada, com duração de 30 minutos a vários dias. A fisiopatologia não é completamente compreendida, mas acredita-se que envolva nocicepção miofascial periférica (sensibilidade dos músculos pericranianos) na forma episódica e sensibilização central das vias de dor na forma crônica [3]. Estresse, má postura, privação de sono e fadiga ocular são gatilhos comuns.
**2. Enxaqueca**
A enxaqueca afeta aproximadamente 12–15% dos adultos e é três vezes mais comum em mulheres do que em homens. Caracteriza-se por dor unilateral pulsátil, de intensidade moderada a grave, com duração de 4–72 horas, frequentemente acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e fonofobia. Aproximadamente um terço dos pacientes com enxaqueca experimenta aura — distúrbios visuais, sensoriais ou de linguagem transitórios que precedem a cefaleia. A compreensão atual da fisiopatologia da enxaqueca concentra-se na depressão alastrante cortical (para a aura) e na ativação do sistema trigeminovascular, com o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) desempenhando papel fundamental na sinalização da dor [2].
**3. Cefaleia em salvas**
A cefaleia em salvas é menos comum (prevalência ~0,1%), porém extremamente intensa. Apresenta-se como dor estritamente unilateral, orbital ou periorbital, em pontada, com duração de 15–180 minutos, ocorrendo em salvas (surtos) de semanas a meses. Características autonômicas ipsilaterais — lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão nasal, ptose — são sinais característicos. Acredita-se que a ativação hipotalâmica seja responsável pela periodicidade circadiana e circanuais.
**4. Cefaleia por uso excessivo de medicamentos (CEM)**
A CEM surge quando medicamentos para cefaleia aguda (analgésicos, triptanos, opioides ou associações medicamentosas) são utilizados ≥10–15 dias por mês durante mais de 3 meses. Paradoxalmente, os próprios medicamentos destinados a aliviar a cefaleia perpetuam um ciclo de cefaleia crônica diária por meio de sensibilização central e alteração da modulação da dor.
### Cefaleias Secundárias
**5. Cefaleia cervicogênica**
Originando-se de estruturas da coluna cervical (articulações facetárias, discos intervertebrais, raízes nervosas cervicais superiores), a cefaleia cervicogênica tipicamente se apresenta como dor unilateral irradiando do pescoço para a região frontal ou temporal, frequentemente agravada por movimento cervical ou posturas mantidas.
**6. Cefaleia sinusal**
A cefaleia sinusal verdadeira resulta de sinusite bacteriana ou viral aguda, apresentando-se como pressão facial e dor sobre o seio afetado, piorada ao inclinar-se para frente, e acompanhada de congestão nasal, secreção purulenta e, por vezes, febre. É importante notar que muitas "cefaleias sinusais" autodiagnosticadas são, na verdade, enxaquecas — estudos sugerem que até 88% dos pacientes que se apresentam com cefaleia sinusal preenchem os critérios da ICHD para enxaqueca [2].
**7. Causas sistêmicas e metabólicas**
A cefaleia pode ser secundária a febre, desidratação, hipoglicemia, hipertensão arterial (particularmente emergência hipertensiva com sistólica >180 mmHg), anemia, abstinência de cafeína, exposição a monóxido de carbono ou infecção viral. Nesses casos, o tratamento da condição subjacente geralmente resolve a cefaleia.
**8. Causas intracranianas graves**
Embora incomum, a cefaleia pode sinalizar hemorragia subaracnóidea, meningite, tumor cerebral, trombose de seio venoso cerebral, arterite de células gigantes ou glaucoma agudo de ângulo fechado. Essas condições requerem avaliação emergencial.
## SINAIS DE ALERTA
Os seguintes sinais de alerta — por vezes lembrados pelo mnemônico **SNOOP4** — exigem avaliação médica imediata (serviço de emergência ou ligar para 192/SAMU) [6]:
- **Cefaleia "em trovoada"** — cefaleia súbita e intensa que atinge intensidade máxima em segundos a um minuto (sugere hemorragia subaracnóidea até prova em contrário)
- **A pior dor de cabeça da sua vida** — especialmente se diferente das cefaleias anteriores
- **Nova cefaleia após os 50 anos** — levanta suspeita de arterite de células gigantes, lesão expansiva ou outra causa secundária
- **Cefaleia com febre, rigidez de nuca e exantema** — tríade clássica de meningite
- **Cefaleia com déficits neurológicos** — fraqueza, dormência, perda visual, dificuldade de fala, confusão mental, convulsão ou alteração do nível de consciência
- **Cefaleia após traumatismo craniano** — mesmo leve, especialmente se piora progressiva ou associada a vômitos ou sonolência
- **Cefaleia com papiledema** — edema do disco óptico sugerindo hipertensão intracraniana
- **Cefaleia progressiva** com piora ao longo de dias a semanas, especialmente se pior pela manhã ou agravada por manobra de Valsalva (tosse, esforço)
- **Cefaleia em paciente imunossuprimido** — HIV, transplantado, em quimioterapia
- **Cefaleia com olho vermelho, halos ao redor de luzes e redução da visão** — pode indicar glaucoma agudo de ângulo fechado
- **Nova cefaleia durante a gravidez ou puerpério** — pode indicar pré-eclâmpsia, trombose venosa cerebral ou síndrome da encefalopatia posterior reversível (PRES)
> **Importante:** Se qualquer um destes sinais de alerta estiver presente, NÃO tente automedicação. Procure atendimento médico de emergência imediatamente.
## Autocuidado em Casa
Para cefaleias tensionais ou enxaquecas leves a moderadas sem sinais de alerta, as seguintes estratégias não farmacológicas baseadas em evidências podem ajudar:
**1. Repouso em ambiente escuro e silencioso**
Reduzir a estimulação sensorial (luz e ruído) é uma medida fundamental no manejo agudo da enxaqueca e também pode aliviar a cefaleia tensional.
**2. Compressa fria ou quente**
Aplicar uma compressa fria na testa ou nas têmporas por 15–20 minutos pode reduzir a dor da enxaqueca por meio de vasoconstrição local e redução da velocidade de condução nervosa. Alguns indivíduos com cefaleia tensional preferem uma compressa quente no pescoço e nos ombros para relaxar os músculos tensos.
**3. Hidratação adequada**
A desidratação é um gatilho bem reconhecido de cefaleia. Um pequeno ensaio clínico randomizado demonstrou que aumentar a ingestão de água em 1,5 L/dia reduziu a intensidade e a duração da cefaleia em indivíduos com cefaleias frequentes.
**4. Manejo do estresse e técnicas de relaxamento**
Relaxamento muscular progressivo, exercícios de respiração profunda e redução do estresse baseada em mindfulness (MBSR) demonstraram benefício na redução da frequência e intensidade da cefaleia tensional. Uma revisão Cochrane concluiu que a acupuntura também pode ser benéfica como estratégia preventiva para a cefaleia tensional [7].
**5. Higiene do sono regular**
Tanto o sono insuficiente quanto o excessivo podem desencadear cefaleias. Manter um horário regular de sono e vigília (7–9 horas para adultos) é geralmente recomendado.
**6. Cafeína — com moderação**
Uma pequena quantidade de cafeína (p. ex., 65–200 mg, aproximadamente uma a duas xícaras de café) pode potencializar a eficácia analgésica e ajudar a aliviar a cefaleia. No entanto, o consumo habitual acima de 200 mg/dia aumenta o risco de cefaleia por abstinência de cafeína e cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
**7. Óleo de hortelã-pimenta**
A aplicação tópica de solução de óleo de hortelã-pimenta a 10% nas têmporas demonstrou, em pequenos estudos, reduzir a intensidade da cefaleia tensional de forma comparável a 1.000 mg de paracetamol.
**8. Limitar o tempo de tela e otimizar a ergonomia**
O uso prolongado de telas e a má postura contribuem para fadiga ocular e cefaleia cervicogênica. A regra 20-20-20 (a cada 20 minutos, olhar para algo a 6 metros de distância por 20 segundos) pode reduzir as cefaleias associadas.
## Medicamentos de Venda Livre Úteis
Os analgésicos de venda livre são a farmacoterapia de primeira linha para cefaleia tensional episódica e enxaqueca leve a moderada. É fundamental limitar o uso a menos de 10–15 dias por mês para evitar cefaleia por uso excessivo de medicamentos.
| Classe | Exemplo | Dose Típica para Adultos | Observações |
|---|---|---|---|
| **Paracetamol (acetaminofeno)** | Tylenol | 500–1.000 mg a cada 4–6 horas (máx. 3.000 mg/dia; algumas diretrizes permitem até 4.000 mg em adultos saudáveis) | Primeira linha para CTT. Evitar em insuficiência hepática ou com uso de álcool (>3 doses/dia). Uma revisão Cochrane confirmou a eficácia para CTT episódica (NNT ≈ 10 para ausência de dor em 2 horas) [4]. |
| **Ibuprofeno** (AINE) | Advil, Motrin | 200–400 mg a cada 4–6 horas (máx. 1.200 mg/dia sem receita) | Eficaz tanto para CTT quanto para enxaqueca. Evitar em insuficiência renal, doença ulcerosa péptica ou terceiro trimestre de gravidez. Tomar com alimentos. |
| **Naproxeno sódico** (AINE) | Aleve | 220–440 mg inicialmente, depois 220 mg a cada 8–12 horas (máx. 660 mg/dia sem receita) | Maior duração de ação que o ibuprofeno; pode ser preferido quando a cefaleia tende a recorrer. Mesmas precauções gastrointestinais e renais do ibuprofeno. |
| **Ácido acetilsalicílico** (AINE/salicilato) | Bayer, Bufferin | 500–1.000 mg a cada 4–6 horas (máx. 4.000 mg/dia) | Eficaz para CTT e enxaqueca. Contraindicado em crianças e adolescentes (risco de síndrome de Reye). Evitar com anticoagulantes. |
| **Ácido acetilsalicílico + paracetamol + cafeína** | Excedrin Extra Strength | 2 comprimidos (250 mg AAS/250 mg paracetamol/65 mg cafeína) a cada 6 horas (máx. 8 comprimidos/dia) | Aprovado pelo FDA para enxaqueca. Um ECR com poder estatístico adequado demonstrou superioridade em relação ao placebo e aos componentes individuais para enxaqueca leve a moderada [5]. |
> **Atenção:** Os AINEs apresentam riscos cardiovasculares (aumento do risco de IAM e AVC com uso prolongado), gastrointestinais (ulceração, sangramento) e renais. O paracetamol apresenta risco de hepatotoxicidade em doses supraterapêuticas. Sempre leia as bulas e consulte um farmacêutico ou médico se estiver usando outros medicamentos.
## Opções com Receita Médica
A terapia com receita médica é geralmente indicada quando as cefaleias são moderadas a graves, não respondem às medidas de venda livre, são frequentes (≥4 dias de cefaleia/mês para enxaqueca) ou comprometem significativamente a qualidade de vida.
### Terapias Agudas (Abortivas)
| Classe | Exemplo | Dose Típica para Adultos | Observações |
|---|---|---|---|
| **Triptanos** (agonistas 5-HT1B/1D) | Sumatriptano (Imitrex), rizatriptano (Maxalt), eletriptano (Relpax) | Sumatriptano 50–100 mg VO; pode repetir em 2 horas (máx. 200 mg/dia) | Primeira linha para enxaqueca moderada a grave. Contraindicado em HAS não controlada, DAC, história de AVC. Prescrito por atenção primária, neurologia [5]. |
| **Derivados do ergot** | Diidroergotamina (DHE-45, spray nasal Migranal) | DHE 1 mg IM/SC ou spray nasal | Usado quando triptanos falham; mesmas contraindicações vasculares. Geralmente prescrito por neurologia. |
| **Gepantes** (antagonistas do receptor CGRP) | Ubrogepanto (Ubrelvy), rimegepanto (Nurtec ODT) | Ubrogepanto 50–100 mg VO; rimegepanto 75 mg VO | Classe mais nova; sem efeitos vasoconstritores, podendo ser usada em pacientes com fatores de risco cardiovascular. Prescrito por atenção primária ou neurologia. |
| **Ditanos** (agonistas 5-HT1F) | Lasmiditano (Reyvow) | 50–200 mg VO | Sem propriedades vasoconstritoras; pode causar tontura/sedação. DEA Schedule V. Prescrito por neurologia. |
| **AINEs com receita** | Cetorolaco (Toradol) | 10 mg VO ou 30–60 mg IM (ambiente de emergência) | Frequentemente usado para cefaleia aguda no pronto-socorro; limitado a 5 dias devido ao risco gastrointestinal e renal. |
| **Antieméticos** | Metoclopramida, proclorperazina | Varia conforme o agente | Frequentemente usados como adjuvantes ou monoterapia para enxaqueca no pronto-socorro, especialmente quando náuseas são proeminentes. |
### Terapias Preventivas (Profiláticas)
A terapia preventiva é geralmente considerada quando as cefaleias ocorrem ≥4 dias/mês, são significativamente incapacitantes, ou os medicamentos agudos estão sendo usados em excesso ou são contraindicados.
| Classe | Exemplo | Dose Típica para Adultos | Observações |
|---|---|---|---|
| **Betabloqueadores** | Propranolol, metoprolol | Propranolol 40–240 mg/dia em doses fracionadas | Bem estabelecido para prevenção de enxaqueca. Evitar em asma, bradicardia. |
| **Antidepressivos tricíclicos** | Amitriptilina | 10–75 mg ao deitar | Eficaz na prevenção tanto de enxaqueca quanto de CTT. Efeitos colaterais anticolinérgicos (boca seca, sedação, ganho de peso). |
| **Antiepilépticos** | Topiramato, valproato | Topiramato 25–100 mg/dia; valproato 500–1.500 mg/dia | Topiramato pode causar embotamento cognitivo, perda de peso, cálculos renais. Valproato é teratogênico — contraindicado na gravidez. |
| **Anticorpos monoclonais anti-CGRP** | Erenumabe (Aimovig), fremanezumabe (Ajovy), galcanezumabe (Emgality) | Erenumabe 70–140 mg SC mensal | Classe mais nova com perfil favorável de efeitos colaterais. Prescrito por neurologia ou especialistas em cefaleia. |
| **OnabotulinumtoxinA** | Botox | 155–195 unidades IM em 31–39 pontos de injeção a cada 12 semanas | Aprovado pelo FDA apenas para enxaqueca crônica (≥15 dias de cefaleia/mês). Administrado por neurologia. |
| **IRSNs** | Venlafaxina | 75–150 mg/dia | Pode ser considerado para prevenção de enxaqueca, especialmente em pacientes com depressão comórbida. |
## Exames Laboratoriais Comumente Solicitados
A cefaleia é primariamente um diagnóstico clínico. Exames laboratoriais e de imagem são solicitados para excluir causas secundárias quando sinais de alerta estão presentes ou o padrão da cefaleia é atípico.
| Exame | Justificativa |
|---|---|
| **Hemograma completo (HC)** ([/tests/complete-blood-count](/tests/complete-blood-count)) | Rastreamento de anemia, infecção ou alteração hematológica como causa da cefaleia |
| **Velocidade de hemossedimentação (VHS) e proteína C-reativa (PCR)** ([/tests/esr](/tests/esr), [/tests/c-reactive-protein](/tests/c-reactive-protein)) | Elevados na arterite de células gigantes; devem ser solicitados em qualquer paciente >50 anos com cefaleia de início recente e dor temporal |
| **Painel metabólico básico (PMB)** ([/tests/basic-metabolic-panel](/tests/basic-metabolic-panel)) | Avaliar função renal, eletrólitos, glicemia — desidratação, hipoglicemia ou distúrbio metabólico podem causar cefaleia |
| **Provas de função tireoidiana (TSH)** ([/tests/thyroid-stimulating-hormone](/tests/thyroid-stimulating-hormone)) | Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem contribuir para a cefaleia |
| **Punção lombar (PL)** | Indicada quando há suspeita de meningite, hemorragia subaracnóidea (se TC negativa) ou hipertensão intracraniana idiopática; mede a pressão de abertura e a composição do LCR |
| **TC de crânio (sem contraste)** | Exame de imagem emergencial de primeira linha para cefaleia em trovoada para excluir hemorragia subaracnóidea |
| **RM de encéfalo com/sem contraste** | Resolução superior de tecidos moles; utilizada para avaliar lesão expansiva, trombose de seio venoso cerebral, malformação de Chiari ou patologia da fossa posterior |
| **Angiotomografia/angioressonância** | Avalia aneurisma, dissecção ou vasculite quando há suspeita de etiologia vascular |
## Populações Especiais
### Crianças e Adolescentes
A cefaleia é comum em crianças, com prevalência aumentando ao longo da adolescência. A enxaqueca é o distúrbio primário de cefaleia mais frequente que requer atenção médica em pacientes pediátricos.
- **Paracetamol** e **ibuprofeno** são os tratamentos de venda livre de primeira linha. A dosagem deve ser baseada no peso e orientada por pediatra ou farmacêutico — **não extrapole doses de adultos para crianças**.
- **O ácido acetilsalicílico é contraindicado** em crianças e adolescentes menores de 18 anos devido ao risco de síndrome de Reye.
- **Triptanos**: Alguns triptanos (p. ex., almotriptano para ≥12 anos, rizatriptano para ≥6 anos) têm aprovação do FDA para uso pediátrico; a prescrição deve ser conduzida por neurologista pediátrico.
- Abordagens não farmacológicas (higiene do sono, hidratação, manejo do estresse, limitação do tempo de tela) são especialmente importantes nesta população.
- Crianças que apresentam cefaleia acompanhada de vômitos, alteração do nível de consciência ou piora progressiva necessitam de exame de imagem urgente para excluir tumor de fossa posterior.
### Gravidez e Lactação
O manejo da cefaleia durante a gravidez requer seleção cuidadosa de medicamentos:
- **Paracetamol** é geralmente considerado o analgésico mais seguro durante a gravidez e é o agente de primeira linha preferido.
- **AINEs (ibuprofeno, naproxeno)**: Geralmente evitados na gravidez. Podem ser usados com cautela no segundo trimestre sob supervisão médica, mas são **contraindicados no terceiro trimestre** devido ao risco de fechamento prematuro do ducto arterioso e oligoidrâmnio (alerta do FDA).
- **Ácido acetilsalicílico**: Ácido acetilsalicílico em dose baixa (81 mg) pode ser usado para prevenção de pré-eclâmpsia conforme orientação do obstetra, mas doses analgésicas devem ser geralmente evitadas.
- **Triptanos**: Dados limitados na gravidez. Sumatriptano possui o maior volume de dados de segurança e pode ser considerado quando os benefícios superam os riscos; a decisão deve ser tomada com o médico prescritor.
- **Ergotamínicos**: **Absolutamente contraindicados** na gravidez (efeitos uterotônicos).
- **Agentes preventivos**: Propranolol pode ser usado com cautela; topiramato e valproato são **teratogênicos e contraindicados**.
- **Sinal de alerta**: Cefaleia nova ou em piora no segundo ou terceiro trimestre, especialmente com hipertensão, alterações visuais ou edema, pode indicar **pré-eclâmpsia** e requer avaliação obstétrica imediata.
### Idosos (≥65 anos)
- Cefaleia de início recente nesta faixa etária sempre justifica avaliação minuciosa para excluir causas secundárias, particularmente **arterite de células gigantes (temporal)**, lesão expansiva, hematoma subdural e efeitos colaterais de medicamentos.
- O **uso de AINEs** apresenta maior risco de sangramento gastrointestinal, insuficiência renal e eventos cardiovasculares em idosos. Use a menor dose eficaz pelo menor tempo possível.
- O **paracetamol** é geralmente preferido, mas a função hepática deve ser avaliada, e a dose máxima diária pode precisar ser reduzida (p. ex., ≤2.000 mg/dia em idosos frágeis ou com insuficiência hepática).
- **Triptanos** devem ser usados com cautela devido a comorbidades cardiovasculares; gepantes podem oferecer uma alternativa mais segura.
- A polifarmácia é comum — sempre verifique interações medicamentosas antes de adicionar medicamentos para cefaleia.
### Atletas
- A **cefaleia de esforço** é comum em atletas e geralmente é benigna, mas deve ser avaliada na primeira ocorrência para excluir hemorragia subaracnóidea ou dissecção arterial.
- Hidratação adequada, aquecimento gradual e aclimatação ao calor e à altitude podem reduzir as cefaleias de esforço.
- A **cefaleia pós-concussão** é prevalente em esportes de contato. Atletas com cefaleia após impacto craniano devem ser imediatamente retirados da atividade e avaliados conforme protocolos de concussão (p. ex., SCAT6). Decisões sobre retorno ao jogo devem ser orientadas por especialista em medicina esportiva ou concussão.
- AINEs e paracetamol podem ser usados para alívio agudo; no entanto, o uso frequente durante períodos de treinamento deve ser desencorajado devido ao risco de cefaleia por uso excessivo de medicamentos e efeitos renais dos AINEs durante exercício intenso.
## Quando Intensificar os Cuidados
Utilize os seguintes critérios para determinar o nível apropriado de atendimento:
### Ligar para o SAMU (192) / Ir ao Pronto-Socorro
- Cefaleia em trovoada (intensidade máxima em <1 minuto)
- Cefaleia com febre, rigidez de nuca, exantema petequial
- Cefaleia com déficits neurológicos (fraqueza, perda visual, confusão mental, convulsão)
- Cefaleia após traumatismo craniano significativo, especialmente com perda de consciência, vômitos repetidos ou sonolência progressiva
- Cefaleia com hipertensão arterial grave e súbita (sistólica >180 mmHg)
- Nova cefaleia durante a gravidez com alterações visuais ou pressão arterial elevada
### Consulta no Mesmo Dia ou no Dia Seguinte — Médico / Pronto Atendimento
- Novo padrão de cefaleia que difere significativamente das cefaleias anteriores
- Cefaleia que não responde aos tratamentos habituais de venda livre após 48–72 horas
- Cefaleia acompanhada de febre baixa sem foco claro
- Nova cefaleia em paciente com mais de 50 anos
- Cefaleia com claudicação mandibular ou sensibilidade no couro cabeludo (suspeita de arterite de células gigantes — biópsia da artéria temporal deve ser realizada em poucos dias)
### Consulta Agendada com Médico ou Neurologista
- Cefaleias ocorrendo ≥4 dias por mês e impactando a qualidade de vida
- Necessidade de avaliação para terapia preventiva
- Suspeita de cefaleia por uso excessivo de medicamentos (uso de medicamentos agudos ≥10–15 dias/mês)
- Cefaleias não adequadamente controladas apesar de terapia apropriada com medicamentos de venda livre
- Desejo de encaminhamento para especialista em cefaleia ou clínica multidisciplinar de dor
> **Aviso Legal:** Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e não substitui aconselhamento médico profissional, diagnóstico ou tratamento. Sempre consulte um profissional de saúde qualificado para orientações adaptadas à sua situação específica.
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